Porque larguei o cosplay?

Pra que for fun se posso competir com gigantes e mostrar para todos que eu sou foda, com meu cosplay foda de 1 milhão.

CUIDADO – POST LONGO Á FRENTE

Os mais jovens de hoje que acordam excitados para o dia do evento, já saem de casa com a bandana do Naruto e já estão de cosplay; e temos o outro lado do morro, o cosplayer competidor, que não sabe perder porque ele nunca perde. Impecável, faz do evento seu palco para demonstrar sua maestria e perfeição, que se fodam os rivais, dobrem a lingua quando falarem alguma coisa ou contestarem o juiz na eliminatória do Mundial. Aqui não tem perdão, ganhar é lei.

A competição é acirrada, os envolvidos não querem perder.
Basta apenas 1 comentário para a bomba explodir. Todos são atingidos, sobra até para o cosmaker.

Mas nem tudo é competição, tem alguns cosplayers que aproveitam para fazer belíssimas fotos, aproveitando a ocasião e as dependências do local do evento (quando dá). Na maioria dos casos, o cosplayer já tem o seu fotografo particular. Só que em local público, outros irão atrapalhar, resultando em atitudes no mínimo questionáveis por parte do cosplayer. Mas isso vou abordar outro dia.

E como já não bastasse, a cada metro do evento, sempre tem alguém se aproveitando da ocasião para fazer merda, a cada temporada pipoca um caso em algum evento de médio a grande porte. Lembre-se amiguinhos, vivemos em uma sociedade adestrada pelos principais meios de comunicação, se eles dizem que cosplay é coisa de maluco, não espere compreensão de um estranho.

Resumindo, o cenário cosplay virou um Campo Minado, pelas pessoas que se tornaram tóxicas com o tempo, pela merda da mídia que vive esculachando todo mundo, pela nossa sociedade mal informada depreciar e tratar com preconceito e por fim, uma luta por uma competição que só cria inimigos entre seus semelhantes.

É triste ver a que ponto chegamos.

Mas nem sempre foi assim.

A mais de 10 anos atrás, o cosplay estava começando a se tornar popular. Havia um concurso básico nos eventos, todos participavam de alguma forma. Ao contrário de hoje, na época sobrava cosplayers por m², o que rendia várias fotos e novas amizades.

Eu também quis entrar nessa brincadeira com um cosplay básico, com roupas de armário adaptadas.

A uns dias, eu fiquei sabendo de uma novela de um tal canal popular carioca, um personagem cosplayer adolescente. Já no primeiro capitulo já rendeu o bordão. Na boa, com todos os floquinhos chilicando, eu rachei o bico, me identifiquei com esse “Goku”. Depois de ver a mesma emissora exibindo reportagens sensacionalistas a respeito, desta vez, eu fiz o contrário, só dei risada.

Sem título
Dramatização de “como era” nos tempos “for fun” do cosplay em meados dos anos 2000. Na minha opinião, a época de ouro.

Comecei essa vida no Anime Friends 2004, e mesmo com o cu na mão, eu fui.

Foi a melhor experiência que tive, ninguém reclamou que meu cosplay era uma merda, ninguém disse que eu estava errado, não havia a temida massificação da televisão estragando tudo, conheci várias pessoas que falavam a mesma língua que eu. Ao voltar para casa e apurar o saldo do dia, entendi porque tantos estavam de cosplay, simplesmente porque era divertido como qualquer outra brincadeira saudável.

É um caminho sem volta pensei logo eu, o cosplay só iria aumentar. Era só uma questão de tempo até isso ganhar proporções bem maiores, logo, os eventos que ainda tinham a animação japonesa como temática, não se restringiram mais as grandes Capitais, agora era nível nacional, e com lotação extrema.

Por exemplo, a foto abaixo era um dia típico do extinto Anime Dreams 2007, é, eu estava lá.

Anime Dreams (12)
Teria coragem de encarar a muvuca?

Tudo que fica popular demais, um dia acaba estragando. E foi aí que alguns engravatados viram a chance de fazer a coisa atingir nível global, além de ganhar alguns trocados. Um novo concurso para ver quem era o cosplayer mais foda de todos, estava nascendo.

Tudo era muito novo, todo mundo queria participar do concurso. Não havia certo ou errado. Seria só mais uma forma de se divertir como sempre.

Mas nem todos pensavam assim, vários cosplayers começam a se dedicar exclusivamente para os concursos com objetivos particulares.

Isso fez o cenário cosplay começar a sofrer uma transição, o concurso começou a agregar status, transformando a diversão em serious business.

Nessa altura, o numero de frequentadores nos eventos já era enorme, e para a mídia que vive requentando as mesmas marmitas, foi o sinal de fumaça excelente, as massas que antes ignoravam ou nem sabiam que evento dessa natureza existia, agora começa a tomar nota, e para a empresa, quanto mais $$$ no caixa melhor.

Agora com frequentadores mais jovens, os eventos deixam de priorizar a temática japonesa (leia-se anime e mangá), para se tornarem eventos multi-temáticos. A mudança veio por consequência em atrair todas as tribos de clientela. Mudança que veio a gosto de muitos, e a desgosto de outros.

Atrações que antes eram o motivo para você ir deixaram de existir para dar lugar a outras visando mais o público mais jovem como dito. Tipo convidar YouTubers para requentar tudo que já é dito em seus vídeos por exemplo. Temas voltados para as HQs americanas, inclui-se filmes, jogos ocidentais e etc.

Aquele frio na barriga que antecede os eventos não existe mais, a maioria do pessoal das antigas perdeu completamente a vontade de ir, não vale mais a pena tomar banho de sol de meio-dia na fila e ouvir gritaria e conviver com péssima organização padrão Brasil de ser. Tudo virou uma zona, uma bagunça, sem segurança e sem infraestrutura para atender a demanda.

Sendo mais do mesmo, eventos grandes perderam seu charme de outrora, isso acabou dando espaço para os eventos menores se promoverem. Há quem diga que achou o refugio nestes eventos pequenos, que pela sua simplicidade, passam a mesma sensação de antigamente. Mas nós sabemos que os velhos tempos agora são passado, isso não me pertence mais.

Eu frequento eventos desde 2003, a última vez que estive de cosplay em um evento, foi em 2010, em plena era que o Vocaloid era moda dominante. Eu fiz parte desse bando com cosplay de Vocaloid (finja surpresa). Não fiquei nem 1 hora e fui repreendido, ameaçado e xingado por alguns jovens escrotos que tinham comportamento tipico das massas, e para a maioria que assiste TV aberta, eu era só mais um louco. Mesmo com vários cosplays de Vocaloid brotando, acabei sendo o escolhido.

Para alguém como eu que viu o quanto era legal ir de cosplay para evento, passar por uma humilhação dessas, foi um choque. E não tinha nada a ver com o fato do Vocaloid ser modinha na época. Foi puro preconceito e discriminação.

Sem falar nos comentários que andei lendo no Facebook e no orkut na época, cosplayers que ostentando seu cosplay “nível japonês” em um tom pegajoso e mediocre, denegrindo a imagem dos outros que não tinham tantos recursos, tipo, foda-se você que não pode pagar, eu tenho você não tem. Porra, para que isso? Em que ponto a humanidade voltou tanto no tempo para praticar essa infantilidade?

O que citei é só um exemplo. A falta de respeito que come solto nas redes sociais é muito maior, onde não á limites, e qualquer um fala o que quiser e faz de tudo para impor a sua verdade.

Assim sendo e cansado de ver tanta merda gratuita, eu prometi que nunca mais iria de cosplay em eventos de novo, e somei mais um para a estatística que já estava alta.

 

Outro fato que influencia o abandono, é o valor para a confecção do cosplay. Se o seu personagem tiver detalhes, ou você abre mão deles, ou paga o preço dos detalhes. Se tiver emprego e ganha bem, bom para você, do contrário, esqueça. Como a maioria que frequenta hoje não tem emprego fixo, ou recebe pouco, é melhor ir só de civil mesmo.

A época que evento não era popular, não havia jornais ou canais de TV informando, a mídia não se interessava por isso por ser coisa de nicho, e só hoje compreendo isso. Era bem melhor naqueles tempos. Quem reclamava ontem, hoje aprendeu a dar valor. Mas infelizmente é tarde demais.

Por não ter mais idade para ficar batendo de frente com adorrecentes, não ter dinheiro para gastar com isso, e nem paciência para ficar lidando com todas essas adversidades que eu não pedi, parei com o cosplay de uma vez. Hoje, eu me dedico a minha Hatsune Miku, e ao cosplay dela, que foi o último que fiz para mim mesmo, não para os outros.

Se querem tratar cosplay como se trata futebol, façam como achar melhor. Nesses tempos de “ismo”, preservar a saúde é melhor do que ler sobre a discussão da apuração de juiz de concurso, sabotar a armadura do amiguinho, dar o calote e meter o louco sumindo com o dinheiro alheio (também conhecido como Estelionato), roubar mochilas com câmeras nas salas dos eventos, ver costureira não cumprindo prazos, gastar 6 MIL REAIS em vários cosplays cafonas de Naruto (foi mal aí, eu gastei mais de mil reais no meu cosplay detalhado da Miku que irei abordar aqui no futuro sobre seu conturbado desenvolvimento).

É isso amiguinhos, a vida continua.

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2 comentários em “Porque larguei o cosplay?

  1. Nossa, não sabia que havia discriminação desse nivel por causa do cosplay de uma pessoa não agradar a outra. Uma coisa que posso dizer é que o preconceito também é gerado pela falta de educação das pessoas, pelos menos é assim que penso. Se voce foi repreendido por muitos adolescentes pelo fato do seu cosplay não agrada-los nos eventos, voce poderia ter considerado de antemão uma possibilidade disso acontecer. A educação do nosso país esta em niveis horrendos, Pra mim, a escola pode ensinar porém pode destruir alguém, o que acontece com isso? Esses adolescentes idiotas que são o “futuro da Nação” estão a toda a parte muitas vezes “piorando o futuro da Nação”. Não espere que os otakus do Brasil seja como os japoneses, muitos ai tem pinta de funkeiro. Então, qualquer coisa que não agrade um desses individuos nesses eventos, pode se abrir uma porta para a ofensa. Brasil é uma merda em educação por isso coisas assim acontece, pode ter sido com voce ou com muitos outros. Não sou cosplayer, e prefiro ficar em casa e abraçar as coisas que amo, como cultura japonesa, e até expor na internet, agora frequentar eventos aqui? Eu não, prefiro frequentar eventos no Japão algum dia se conseguir renda para isso ou até nos EUA. Onde sei que seria uma porta para o paraiso do que gosto. Já ouviu sobre a noticia do programa panico na band quando eles foram no evento de quadrinhos? esqueci o nome do evento, mas eles difamaram e discriminarão alguns cosplayers do evento e foram expulsos de todas edições futuras do concurso. Se até um programa de gente como eles, em plena filmagem fazem aquela palhaçada e discriminam os cosplayers, imagina gentinha favelado dando uma de otaku nesses concursos?
    “viva dentro de si mesmo, não vai conseguir nada lá fora” é assim que eu penso. Não que eu esteja te aconselhando a deixar de frequentar, mas tentar ter sempre em mente que brasileiros são brasileiros independente do ambiente em volta. E para a maioria dos Brasileiros = mal educação.

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    1. É isso mesmo meu amigo! Evento em BR deixou de ser como era, hoje é tudo multi temático. E a qualidade vai pro saco. As vezes eu quebro essa exceção indo em um ou outro para ver meus amigos que fazem questão de ir. Mas olha, você não está perdendo nada.

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